Se o inglês Phileas Fogg estivesse vivo hoje, e se propusesse a participar de uma nova aposta, certamente os seus amigos de jogo fariam com que ele realizasse uma “Volta ao Mundo em 80 dias”. Nessa nova viagem, Phileas Fogg viverá diversas aventuras e conhecerá vários lugares do mundo, incluindo agora no roteiro o bairro da Caximba, localizado na cidade de Curitiba, no Brasil. A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (no original, Le tour du monde en quatre-vingts jours) é um livro do escritor francês Júlio Verne, lançado em 1873. Já o filme estadunidense A Volta ao Mundo em 80 dias, do gênero aventura, de 1956, foi dirigido por Michael Anderson, Kevin McClory e Sidney Smith, com roteiro baseado na obra homônima de Júlio Verne. Embora muitos dos livros lançados com o tema de A Volta ao Mundo em 80 dias tragam em suas capas a foto de um balão, não há momento algum na história em que os personagens se utilizem dele. Em certa ocasião, Phileas Fogg cogita o uso de um balão, mas a idéia fica só na imaginação. A nova aventura imaginária de Phileas Fogg começaria na data de hoje, 13 de agosto de 2010, uma sexta-feira, coincidentemente quando ainda faltam 80 dias para o encerramento das operações do “Aterro Sanitário da Caximba”. Na cidade de Curitiba, o Juiz de Direito Marcel Guimarães Rotoli de Macedo determinou que o Aterro Sanitário da Caximba, conhecido popularmente por “Lixão da Caximba”, seja encerrado “final e definitivamente” no dia 1.º de novembro de 2010. A nova aventura de Phileas Fogg terá como partida e chegada a cidade de Curitiba. Fogg teria além da companhia de seu empregado, a presença de Jadir Lima, morador da Caximba, e do padre José Antonio, pároco local. Com absoluta certeza A Volta ao Mundo em 80 dias teria hoje o uso pelos personagens, de notebook, telefone celular, internet, GPS, máquinas digitais, entre outros itens, e um diário de bordo digital, onde se fariam constar todos os relatos de suas aventuras. A primeira folha do diário de bordo seria aberta com os relatos de Jadir e do padre José. Eles teriam 80 dias para contar a Phileas Fogg a história de mais de 20 anos de operação do “Lixão da Caximba”. Esse empreendimento é de titularidade da Prefeitura de Curitiba e atualmente está sendo operado pela empresa CAVO, do grupo Camargo Correa. Lá na Caximba são enterradas diariamente algo perto de 2.400 toneladas de lixo de 19 cidades brasileiras. Jadir diria a Fogg que o lixão está com os dias contados. Que faltam 80 dias para fechar os portões da Caximba para a entrada de lixo. Que os moradores do entorno do famigerado empreendimento municipal não agüentam mais com o cheiro de lixo. Anualmente são milhares de caminhões carrregados de lixo que trafegam pelas estradas da Caximba. Fogg iria tomar conhecimento de que na Caximba existem vetores, urubus, no lixão. Que a creche e o posto de saúde dos moradores do bairro estão instalados no pé do aterro sanitário, distantes apenas por alguns passos largos, menos de 500 metros. Padre José poderia dizer a Fogg que o empreendimento recebe diariamente milhares de toneladas de lixo ao arrepio da legislação. Que o empreendimento funciona sem a licença de operação do Instituto Ambiental do Paraná, órgão estatal responsável pelo meio ambiente. Que estão fazendo uma tal de “reconformação” no lixão. E mesmo sabendo do que acontece no bairro e com o empreendimento público, o Consórcio Intermunicipal para Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos, formado pelas cidades de Curitiba e da Região Metropolitana, pretendia implantar lá na Caximba, uma usina de lixo e um novo aterro sanitário. E que isso não vai acontecer somente porque a entidade Aliança Para o Desenvolvimento Comunitário da Caximba ingressou na Justiça do Paraná, e que a sentença do Tribunal proíbe que se construa lá um novo aterro sanitário. Certamente Fogg ficaria impressionado. Faltam ainda 80 dias para fechar o aterro sanitário. É muito tempo. O “Lixão da Caximba” há muito que deveria ser interditado. Depois de mil e uma aventuras, Phileas Fogg e sua tripulação chegarão pontualmente ao seu destino. Quando A Volta ao Mundo em 80 dias tivesse o seu final em Curitiba, Fogg, acompanhado de seu empregado, do morador Jadir e do padre José, fariam pousar o balão na área do lixão da Caximba, exatamente no dia 1º. de novembro de 2010. Todos ficarão felizes em saber que o “Aterro Sanitário da Caximba” está fechado. Que foi cumprida a determinação da Justiça do Paraná e que não existem mais operações para enterrar lixo na Caximba. Fogg ganhará a sua aposta. Tinha feito em oitenta dias a viagem ao redor do mundo! Tinha empregado para fazê-la todos os meios de transporte, paquetes, railways, carruagens, iates, navios mercantes, trenós, elefante e dessa vez um balão. Mas afinal? O que Fogg ganhou com este deslocamento? O que alcançara com esta viagem? Nada, diriam? Nada, vá lá, a não ser uma sedutora mulher (quem sabe uma brasileira), que — por mais inverossímil que possa parecer — o tornaria o mais feliz dos homens! Já o fechamento do “Lixão da Caximba” tornará felizes milhares de contribuintes da taxa do lixo e moradores do bairro da Caximba. E ansiosos com a recuperação do passivo ambiental do lixão. Imaginário ou não?