Gomorra revela o transporte do ‘lixo tóxico’ para depósitos impróprios

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O filme “Gomorra” de Matteo Garrone foi o vencedor do Grande Prêmio do Festival de Cannes e está indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, sendo um dos favoritos ao Oscar na mesma categoria. Gomorra, o filme, é baseado no livro de mesmo nome de autoria do  jornalista italiano Roberto Saviano. O autor do livro Gomorra se infiltrou na máfia Camorra para desvendar como ela funciona. Apesar de parecer que tudo corre bem nas províncias de Nápoles e Caserta, na Itália, a máfia Camorra está dominando diversos setores cotidianos da sociedade, fazendo com que simples moradores tenham que abdicar de seus princípios para que possam sobreviver. Num grande condomínio da periferia, isso fica bastante claro. Dom Ciro é um típico caso do homem que se considera honesto, mas que trabalha para os mafiosos por medo do que possa acontecer. Ele é o responsável por pagar aos moradores para que não traiam os criminosos. No mesmo local também vive Totó, um garoto que ajuda sua mãe em uma pequena venda e é bastante querido pelos moradores. Mesmo com os incentivos da mãe para que tenha uma vida honesta e se mantenha longe da confusão, o menino se deixa seduzir pelos bandidos e deseja ser um deles. Mais ambiciosos são Marco e Ciro, dois jovens que, ao contrário de Totó, não querem ser escolhidos para trabalhar dentro de organizações de tráfico de drogas, mas querem matar os grandes traficantes para ocupar o cargo máximo. As dificuldades são grandes também para Pasquale, um alfaiate da alta-costura italiana, mas que trabalha sem muitas condições, sendo explorado pela sua origem pobre. Cansado, ele aceita a proposta de imigrantes chineses, que oferecem uma grande quantia para que ele ensine tudo o que sabe. Também vindo de uma família humilde, Roberto sempre teve dificuldade de encontrar um emprego, até ser contratado por Franco, um importante empresário, para ser seu braço direito. Porém, ele terá que ajudá-lo a enganar pequenos proprietários de terra para que os deixem jogar lixo tóxico no local. Até aqui é o filme. Mas tudo indica que há um setor novo e promissor: o tráfico de resíduos tóxicos, perigoso para a saúde dos habitantes e o meio ambiente do país e que movimenta US$ 2,6 bilhões por ano. A Itália produz 80 milhões de toneladas de resíduos ao ano, entre resíduos urbanos e perigosos, das quais 35 milhões estão nas mãos de organizações criminosas, como a “Cosa Nostra” da Sicília, “La ‘Ndreghetta Reggina” da Calábria, a “Sacra Corona” de Puglia, ou a “Camorra” napolitana, encarregadas da coleta, armazenamento e reciclagem. Custa muito para as indústrias tratarem seus resíduos, por isso aceitam ofertas de empresas da máfia que são até 400 vezes mais baratas do que as demais. O “lixo tóxico” é um negócio em crescimento. Os traficantes falsificam certificados de modo que a carga perigosa se transforme em lixo domiciliar e alteram permissões de transporte para transladá-los de uma região a outra e descarregá-los em canteiros de construção, parques naturais protegidos, rios, cavernas, escavações em montanhas, terrenos agrícolas e no mar. Uma operação policial estabeleceu que milhões de toneladas de lixo tóxico de algumas indústrias setentrionais foram trasladadas para regiões do centro e do sul, através da simulação de operações de tratamento de resíduos, camuflagem da carga como adubo e fertilizante, e falsificação de permissões de transporte. Em troca de dinheiro, 14 agricultores aceitaram que essas descargas fossem feitas em suas propriedades, onde há criação de gado leiteiro. Em Murgia, sul do país, foram enterrados, em quatro hectares, restos da indústria de peles da Toscana, lama de centrais de depuração de Lazio, resíduos siderúrgicos da Lombardia e Veneto, ambas no norte, e pneus triturados da meridional Campagna. Continham perigosos metais como níquel, cromo e chumbo. No entanto, a máfia não age sozinha, pois conta com a cumplicidade de muitos funcionários públicos. O sistema fez desaparecer em doze meses cerca de 26 milhões de toneladas de lixo industrial e funciona mais ou menos como descreve o escritor Roberto Saviano em seu livro “Gomorra” e que originou o filme de mesmo nome.

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